Uma lua de inverno

Uma lua de inverno

quinta-feira, setembro 08, 2011

Já conseguiram criar o outro onde havia antes o povo


Quem tem qualquer coisa a bater errado no coração sabe tb que tem no motor principal do corpo um certo problema, ele pode nunca ser a "causa do óbito", porém pode assustar de vez em quando. É a vida! Gosto de boas causas, combater o bom combate. Contudo, a divisão territorial do Pará de repente deixa o meu já magoado coração ainda mais nervoso. Sim, por tudo aquilo que já escrevi aqui e nos grupos nos quais participo. Pego-me a pensar que até pouco tempo onde havia um povo, paraenses de nascença ou de adoção, agora já existe o outro, aquele que está do outro lado, que mesmo antes do resultado do plebiscito já não se julga mais do Pará - aquele do orgulho por ser ou estar onde simbolicamente reside a solitária estrela na Bandeira do Brasil. Criou-se no imaginário de parte desse povo maravilhoso a ideia de não-pertencimento...em todos os lados da disputa. Já disse e expliquei pq sou contra essa divisão desnecessária. O Poder Público precisa, sim, ser chamado a servir a quem o elegeu, a todos, ao povo todo, a toda gente. Mas uma pergunta bate aqui, será que é assim que começam as grandes diásporas? Com essas questões territoriais e que se esvaem em coisas do tipo que vez por outra lemos e ouvimos sobre Amazona e Pará (vide o caso de Amazonino). Espero sinceramente que não. Gosto desse Pará diversificado, múltiplo e de cores, sotaques e relevos diferentes, entretanto, único.

domingo, julho 31, 2011

À doce Maria Helena


Ela sentou-se à cadeira de uma mesa de dois lugares ao meu lado. Um sentar estranho, meio de banda, como se a qualquer momento fosse levantar. Reparei no casaco, leve, mas ainda sim um casaco em pleno verão. Inevitavelmente saiu a pergunta, a senhora sente frio, pois não? Ah! Tem um vento lá fora, respondeu prontamente. Prestei atenção nos olhos verdes, grandes, com uma luz incomum. Pensei lá comigo, essa senhora tem por volta de 65 anos e deve estar espera do marido, pois estava lindamente arranjada. Sim, cabelo impecavelmente no lugar, provavelmente graças a um pouco de laca, lábios discretamente pintados, olhos marcados, tudo cuidadosamente arrumado como se ali estivesse a espera de um encontro. Peço algo para comer, perdi a noção do tempo ao passar o dia inteiro a ler, quando dei por mim, 18h00, por isso queria algo mais substancial, mas naquela altura consegui no máximo uma tosta e uma meia de leite. Enquanto eu esperava pelo "almoço" ela me contou que esperava pela filha, uma delas, com quem iria jantar. Olho para o dedo anelar da mão direita e vejo um anel e duas alianças, realmente, não era pelo marido por quem ela que esperava.

Falou-me das cinco netas, "os homens não quiseram se apresentar nesta família", falou a sorrir. Daí reparei com mais detalhes, os olhos delam sorriam juntos com os lábios. Havia algo de especial naquela senhora, que me fez esquecer a fome e preferir saborear as histórias que contava a comer o pão. A certa altura me falou que era viúva e eu disse a ela que já havia notado no dedo dedos as duas alianças. Tomo um gole do café com leite e desvio o olhar porque sei que ela procurava com um dos dedos enxugar a lágrima antes que ela viesse aos olhos. Não era mesmo pelo marido que ela esperava, ou se calhar, era esse o seu desejo, poder estar a espera pelo companheiro de quase 50 anos de casamento. A gente sente falta não é? Ela confessa mais do que me pergunta.

Quanto mais conversávamos, mais vida parecia ter, e como! Contou-me que tinha 81 anos. Como assim? E a pele pouquissimamente marcada? Ela me disse que não sabia porque, mas era assim mesmo, achou que era gentiliza minha. Nada! Ela realmente me impressionava pela jovialidade, pelos olhos que falavam mais que os lábios e pela honestidade de quem parecia conversar com uma velha amiga. Sim velhas amigas e seus vazios. Contou-me que estava só em casa e resolveu sair, é muito triste estar só em casa com as lembranças, falou-me com a certeza de que eu sabia o que ela quis dizer.

Era magrinha e tinha um telemóvel cuidadosamente colocado sobre a mesa. É, pensei, espera ansiosa pela filha.

Terminei meu lanche e ela me contou que desde que o marido morrera, deixou tudo para as meninas, as duas filhas, e foi morar com uma delas. Afirmei com toda convicção, acho bom, assim a senhora não está só. Novamente o mesmo dedo tenta evitar a lágrima que teimava em sair. Desta vez olhei diretamente para aqueles olhos e disse que uma mulher como ela, qualquer filha estaria muito feliz por tê-la como mãe e sempre por perto. O telemóvel tocou. Falou rapidamente. Era a filha que já estava à espera logo próximo dali. Ela se levanta e abre os braços. Eu a abraço como se o tempo não existisse. Senti o corpo frágil, magro. Ela se depediu e me desejou saúde e que Deus me cuidasse. Eu me despedi e disse o quão afortunada era a família dela por tê-la. Ela me sussura ao meu ouvido, pena que por vezes não nos reconhecem...

Nos beijamos afetuosamenteo no rosto uma da outra. Maria Helena, esse é o nome daquela senhora. Pedi um favor a ela, que quando chegasse ao carro contasse à filha sobre a sorte que ela tem, ao ter Maria Helena.

Provavelmente nunca mais eu encontre com essa senhora. Mas duas coisas me tocaram profundamente. A solidão de quem está mesmo em casa, com a família e sente irreconhecido, ou seria, apartado? A solidão que faz com que as pessoas pareçam peças decorativas, a solidão da velhice. A solidão de quem tem tanto a dizer e ninguém a ouvir.

Senti tanto amor por Maria Helena e recebi tanto amor da parte dela...foi pouco tempo, mas tempo é um elemento estranho quando se fala em afetos.

Maria Helena, que teu tempo de afetos seja muito maior do que o número de vezes que tentas conter tuas lágrimas.

À doce Maria Helena


Ela sentou-se à cadeira de uma mesa de dois lugares ao meu lado. Um sentar estranho, meio de banda, como se a qualquer momento fosse levantar. Reparei no casaco, leve, mas ainda sim um casaco em pleno verão. Inevitavelmente saiu a pergunta, a senhora sente frio, pois não? Ah! Tem um vento lá fora, respondeu prontamente. Prestei atenção nos olhos verdes, grandes, com uma luz incomum. Pensei lá comigo, essa senhora tem por volta de 65 anos e deve estar espera do marido, pois estava lindamente arranjada. Sim, cabelo impecavelmente no lugar, provavelmente graças a um pouco de laca, lábios discretamente pintados, olhos marcados, tudo cuidadosamente arrumado como se ali estivesse a espera de um encontro. Peço algo para comer, perdi a noção do tempo ao passar o dia inteiro a ler, quando dei por mim, 18h00, por isso queria algo mais substancial, mas naquela altura consegui no máximo uma tosta e uma meia de leite. Enquanto eu esperava pelo "almoço" ela me contou que esperava pela filha, uma delas, com quem iria jantar. Olho para o dedo anelar da mão direita e vejo um anel e duas alianças, realmente, não era pelo marido por quem ela que esperava.

Falou-me das cinco netas, "os homens não quiseram se apresentar nesta família", falou a sorrir. Daí reparei com mais detalhes, os olhos delam sorriam juntos com os lábios. Havia algo de especial naquela senhora, que me fez esquecer a fome e preferir saborear as histórias que contava a comer o pão. A certa altura me falou que era viúva e eu disse a ela que já havia notado no dedo dedos as duas alianças. Tomo um gole do café com leite e desvio o olhar porque sei que ela procurava com um dos dedos enxugar a lágrima antes que ela viesse aos olhos. Não era mesmo pelo marido que ela esperava, ou se calhar, era esse o seu desejo, poder estar a espera pelo companheiro de quase 50 anos de casamento. A gente sente falta não é? Ela confessa mais do que me pergunta.

Quanto mais conversávamos, mais vida parecia ter, e como! Contou-me que tinha 81 anos. Como assim? E a pele pouquissimamente marcada? Ela me disse que não sabia porque, mas era assim mesmo, achou que era gentiliza minha. Nada! Ela realmente me impressionava pela jovialidade, pelos olhos que falavam mais que os lábios e pela honestidade de quem parecia conversar com uma velha amiga. Sim velhas amigas e seus vazios. Contou-me que estava só em casa e resolveu sair, é muito triste estar só em casa com as lembranças, falou-me com a certeza de que eu sabia o que ela quis dizer.

Era magrinha e tinha um telemóvel cuidadosamente colocado sobre a mesa. É, pensei, espera ansiosa pela filha.

Terminei meu lanche e ela me contou que desde que o marido morrera, deixou tudo para as meninas, as duas filhas, e foi morar com uma delas. Afirmei com toda convicção, acho bom, assim a senhora não está só. Novamente o mesmo dedo tenta evitar a lágrima que teimava em sair. Desta vez olhei diretamente para aqueles olhos e disse que uma mulher como ela, qualquer filha estaria muito feliz por tê-la como mãe e sempre por perto. O telemóvel tocou. Falou rapidamente. Era a filha que já estava à espera logo próximo dali. Ela se levanta e abre os braços. Eu a abraço como se o tempo não existisse. Senti o corpo frágil, magro. Ela se depediu e me desejou saúde e que Deus cuidade de mim. Eu me despedi e disse o quão afortunada era a família dela por tê-la. Ela me sussura ao meu ouvido, pena que por vezes não nos reconhecem...

Nos beijamos afetuosamenteo no rosto uma da outra. Maria Helena, esse é o nome daquela senhora. Pedi um favor a ela, que quando chegasse ao carro contasse à filha sobre a sorte que ela tem, ao ter Maria Helena.

Provavelmente nunca mais eu encontre com essa senhora. Mas duas coisas me tocaram profundamente. A solidão de quem está mesmo em casa, com a família e sente irreconhecido, ou seria, apartado? A solidão que faz com que as pessoas pareçam peças decorativas, a solidão da velhice. A solidão de quem tem tanto a dizer e ninguém a ouvir.

Senti tanto amor por Maria Helena e recebi tanto amor da parte dela...foi pouco tempo, mas tempo é um elemento estranho quando se fala em afetos.

Maria Helena, que teu tempo de afetos seja muito maior do que o número de vezes que tentas conter tuas lágrimas.

sexta-feira, abril 29, 2011

Eu gostava de ti, amor!


Eu gostava de ver o amor. De sair à rua e de repente encontrá-lo no café, ou talvez na classe de inglês básico para adultos. Mas não um amor de filme, um amor de cumplicidade construída, de exigências negociadas e de amizade duradoura.

Eu gostava de ter esse amor. Das sessões de cinema e de passeio sem pretensões. Do guarda-chuva dividido em pleno inverno de um hemisfério qualquer. Dos braços dados de quem vê no outro o companheiro de uma jornada, pequena ou curta, não sei, só o caminhar saberia.

Eu gostava de viver esse amor, com mais sabores do que dores, é facto. Daqueles que com o passar do tempo se mexe levemente os lábios - quase em silêncio -, porque já sabe a história que o outro está a contar, mas não tem importância em ouvir de novo. Um amor sem medo, ou mesmo assustado, que se atreva a tentar saber o que quer. Um amor de beijos, muitos beijos, roubados, afobados ou até afogados em águas de saudades.

Eu gostava de ter segurado em minhas mãos um amor desses. Mas amor não se prende, se deixa solto a voar os percursos necessários para que cresça e faça ninho. Não te percebi bem, amor, daí tal como pássaro, foste. Bem sei que estás por aí, algures.

Eu gostava de te ver, de novo, amor.

quarta-feira, janeiro 12, 2011

Para uma cidade que sobrevive apesar de...


Hoje minha cidade comemora anos. Penso que se Belém pudesse recitar, talvez os versos de F. Pessoa (Álvaro de Campos) no maravilhoso "Aniversário" traduzissem o que sente essa senhora maltratada.
Daqui, de longe, o contra-ambiente revela ainda mais minha ambiguidade em relação a uma cidade onde vivi e sonhei. Contudo, para além da nostalgia, não consigo deixar de pensar que é possível, sim, uma Belém para todos. Onde a história a ser preservada e o novo que convém convivam em paz. Uma metrópole que leve o mínimo de conforto aos que nela moram e a tolerância seja mais do que simples retórica.
Um lugar onde a cota parte de cada um revele cuidado e amor. Envolvimento o suficiente para no mínimo escolher bem quem é/será o fiel depositário por quatro anos (ou oito) de Santa Maria de Belém do Grão Pará.
Registrei essa foto, de um velho casarão na 3ª rua de Icoaraci, cujo esplendor do final dos anos 1960 eu presenciei e que hoje se mostra assim. Essa imagem traduz um pouco como vejo a minha Belém. Entretanto, não é nada, mas nada mesmo do que boa a vontade, a inteligência, a competência, o amor e a honestidade não trouxessem de volta o belo, o antigo e o novo. De todos e para todos.
A nós belemenses, de longe e de perto, parabéns pela esperança - que mesmo tímida guardamos dentro de nós.
Saudades!