Uma lua de inverno

Uma lua de inverno

terça-feira, março 02, 2010

A uma certa Raimunda


Raimunda perdeu os três filhos. Todos pequenos. Todos mortos num incêndio no barraco onde moravam na periferia de uma grande cidade, de um país de Terceiro Mundo “em desenvolvimento”. Dizem os vizinhos que a mãe deixara as três crianças sozinhas em casa e saíra para ir a um bar. Raimunda se apresentou espontaneamente à polícia, pode ter preferido ir presa a ter que enfrentar a fúria dos vizinhos. Nos diários locais, somam-se imagens dos restos de madeira calcinada, de curiosos e da Raimunda - uma negra e descabelada mulher de olhar indefinido.

Perdeu três filhos, queimados pela fúria das chamas que consumiu a frágil casa de madeira. Raimunda vai ser acusada de negligência, há rumores de que as crianças eram maltratas por ela. Durante três dias seguidos, os diários requentam a história, com um novo e pequeno adendo aqui ou acolá. A mesma imagem da Raimunda, o mesmo olhar indefinido. Ela, dizem os jornais, não acreditava que o fogo era em sua casa, de longe espiara a fumaça, mas não podia crer que era no lugar onde se espremia juntos aos filhos. Raimunda alega que tinha saído de casa só por alguns momentos, eles não poderiam ter morrido, repetia a si mesma. Só acreditou ao ter que reconhecer os restos humanos, corpos queimados - dos filhos da Raimunda.

A história pode se passar em qualquer lugar. Nas centenas de barracos espalhados pelo mundo, em qualquer um deles onde existam barracos. Pode ser realidade, ou ficção - como enredo transversal no último filme de Scorsese. Não importa! Os barracos e as Raimundas sempre estiveram aí, na mesma. O mundo sempre as olhará como Medéias. Mas quem se ocupa de decifrar o olhar indefinido da Raimunda? Quem se detém ao pensar de que ordem é a dor, a dor da Raimunda? Não importa! Em uma semana, outra Raimunda vai ocupar os mesmos espaços nos diários, de qualquer dos mundos, mas sempre neste amargo planeta.

Foto: Escultura de Frans Krajcberg.

2 comentários:

larissa latif disse...

é. como aprendi com antônia e um dia te repeti: com medéia ninguém se mete a entendedor... Jocasta é o trágico domesticado, sobre sua desgraça inventou-se uma civilização pseudo-explicada. Medéia é o que ninguém quer, la part maudite, a civilização que se auto-incinera. Too much human?

Relivaldo de Oliveira disse...

Gostei Ana,

fica muitas vezes difícil ter um certo otimismo diante de tragédias como essa. Mas o que mais me inquieta - e isso está no seu texto - é essa banalidade tão falada e tão praticada ainda pela imprensa. É um dos temas que podem ser sempre estudados e o são - mas me incomoda a mesmice e a vigarice de determinadas abordagens, de um maniqueísmo rasteiro.

Acho que teu talento Ana é mais poético que descritivo, prefiro assim.

bj, minha sempre amiga.

Saudade,
Relivaldo de Oliveira.